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Brasil: Oportunidade Estratégica em Cenário Global Turbulento

Luciana Antonini Ribeiro, da Flying Rivers Capital...

Brasil: Oportunidade Estratégica em Cenário Global Turbulento

A desordem geopolítica global está redefinindo as dinâmicas econômicas, com a guerra na Ucrânia expondo vulnerabilidades energéticas na Europa, conflitos no Oriente Médio impactando preços e logística, e as tensões entre Estados Unidos e China acelerando a reconfiguração das cadeias de produção. Nesse contexto, energia, alimentos e autonomia industrial deixaram de ser questões setoriais para se tornarem pilares da segurança nacional, tornando a diversificação um imperativo estratégico.

O Brasil se destaca nesse novo cenário como um país com capacidade singular para atender a essa demanda global. Possui simultaneamente recursos em energia renovável, proteína animal, grãos, biocombustíveis, minerais críticos e uma base industrial em reconstrução. Enquanto outras economias buscam acesso a esses recursos, o Brasil já os detém e pode evoluir de fornecedor de insumos para arquiteto de cadeias produtivas mais sofisticadas, integradas e resilientes, focadas na economia da transição. A estabilidade geopolítica relativa da América Latina, em um mundo cada vez mais tenso, é um ativo adicional pouco explorado.

No entanto, transformar esse potencial em realidade exige mais do que a simples abundância de recursos naturais. É fundamental uma liderança coordenada entre os setores público e privado para atrair capital internacional de longo prazo, evitando a especulação. Para isso, é preciso oferecer previsibilidade, escala e consistência aos investidores.

O país tem dado passos nessa direção, com a aprovação do marco regulatório do mercado de carbono, a regulamentação do hidrogênio verde e os avanços em combustíveis sustentáveis, indicando a construção de um ambiente normativo mais seguro para o investimento.

No financiamento, o BNDES ampliou linhas de crédito voltadas para a transição energética e a bioeconomia, com foco na mobilização de capital privado. O Tesouro Nacional também avançou na agenda de títulos soberanos verdes, integrando a pauta climática à gestão da dívida. Essas iniciativas, além de instrumentos financeiros, comunicam o posicionamento estratégico do Estado.

Apesar dos avanços, um obstáculo central persiste: a distância entre o grande volume de oportunidades e a efetiva bancabilidade dos projetos. O Brasil não carece de ativos, mas de estruturação. Garantias, clareza regulatória, mitigação de riscos e governança adequada são essenciais para atrair investidores institucionais em larga escala. Sem essa estrutura, o capital não virá por falta de interesse, mas por falta de acesso. Construir bancabilidade é tão crucial quanto construir infraestrutura.

Nesse contexto, o Mercosul surge como um ativo estratégico subutilizado. O bloco reúne recursos naturais, capacidade agroindustrial e um mercado consumidor relevante. O acordo com a União Europeia abre a perspectiva de reposicionar a América do Sul nas cadeias produtivas sustentáveis. Para aproveitar essa oportunidade, o Brasil precisa exercer uma liderança ativa, não apenas na assinatura de acordos, mas na estruturação da cooperação regional em energia, alimentos e infraestrutura.

A América Latina concentra ativos cada vez mais procurados: terras agrícolas, água, biodiversidade, energia renovável e minerais críticos. O Brasil, devido ao seu tamanho e diversidade produtiva, está em uma posição única para liderar essa agenda, não como uma potência hegemônica, mas como um articulador de soluções regionais com relevância global.

A janela de oportunidade está aberta. A questão crucial não é se o Brasil possui os ativos necessários, mas se terá a capacidade institucional e política para convertê-los em um posicionamento estratégico duradouro. Momentos como este são raros. A desordem global, paradoxalmente, cria uma ordem de oportunidades inédita. Para aproveitá-la, é necessária coordenação entre a política industrial, a agenda climática, o financiamento de longo prazo e a diplomacia econômica. O momento de agir é agora.

Luciana Antonini Ribeiro, fundadora e CEO da Flying Rivers Capital, gestora de investimentos dedicada à descarbonização e soluções climáticas, integra o conselho consultivo do Global Climate Finance Centre, de Abu Dhabi, e o Mission Possible Partnership.

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