A desordem geopolítica global está redefinindo as din micas econ micas, com a guerra na Ucr nia expondo vulnerabilidades energéticas na Europa, conflitos no Oriente Médio impactando pre os e logística, e as tens es entre Estados Unidos e China acelerando a reconfigura o das cadeias de produ o. Nesse contexto, energia, alimentos e autonomia industrial deixaram de ser quest es setoriais para se tornarem pilares da seguran a nacional, tornando a diversifica o um imperativo estratégico.
O Brasil se destaca nesse novo cenário como um país com capacidade singular para atender a essa demanda global. Possui simultaneamente recursos em energia renovável, proteína animal, gr os, biocombustíveis, minerais críticos e uma base industrial em reconstru o. Enquanto outras economias buscam acesso a esses recursos, o Brasil já os detém e pode evoluir de fornecedor de insumos para arquiteto de cadeias produtivas mais sofisticadas, integradas e resilientes, focadas na economia da transi o. A estabilidade geopolítica relativa da América Latina, em um mundo cada vez mais tenso, é um ativo adicional pouco explorado.
No entanto, transformar esse potencial em realidade exige mais do que a simples abund ncia de recursos naturais. É fundamental uma lideran a coordenada entre os setores público e privado para atrair capital internacional de longo prazo, evitando a especula o. Para isso, é preciso oferecer previsibilidade, escala e consist ncia aos investidores.
O país tem dado passos nessa dire o, com a aprova o do marco regulatório do mercado de carbono, a regulamenta o do hidrog nio verde e os avan os em combustíveis sustentáveis, indicando a constru o de um ambiente normativo mais seguro para o investimento.
No financiamento, o BNDES ampliou linhas de crédito voltadas para a transi o energética e a bioeconomia, com foco na mobiliza o de capital privado. O Tesouro Nacional também avan ou na agenda de títulos soberanos verdes, integrando a pauta climática gest o da dívida. Essas iniciativas, além de instrumentos financeiros, comunicam o posicionamento estratégico do Estado.
Apesar dos avan os, um obstáculo central persiste: a dist ncia entre o grande volume de oportunidades e a efetiva bancabilidade dos projetos. O Brasil n o carece de ativos, mas de estrutura o. Garantias, clareza regulatória, mitiga o de riscos e governan a adequada s o essenciais para atrair investidores institucionais em larga escala. Sem essa estrutura, o capital n o virá por falta de interesse, mas por falta de acesso. Construir bancabilidade é t o crucial quanto construir infraestrutura.
Nesse contexto, o Mercosul surge como um ativo estratégico subutilizado. O bloco reúne recursos naturais, capacidade agroindustrial e um mercado consumidor relevante. O acordo com a Uni o Europeia abre a perspectiva de reposicionar a América do Sul nas cadeias produtivas sustentáveis. Para aproveitar essa oportunidade, o Brasil precisa exercer uma lideran a ativa, n o apenas na assinatura de acordos, mas na estrutura o da coopera o regional em energia, alimentos e infraestrutura.
A América Latina concentra ativos cada vez mais procurados: terras agrícolas, água, biodiversidade, energia renovável e minerais críticos. O Brasil, devido ao seu tamanho e diversidade produtiva, está em uma posi o única para liderar essa agenda, n o como uma pot ncia hegem nica, mas como um articulador de solu es regionais com relev ncia global.
A janela de oportunidade está aberta. A quest o crucial n o é se o Brasil possui os ativos necessários, mas se terá a capacidade institucional e política para convert -los em um posicionamento estratégico duradouro. Momentos como este s o raros. A desordem global, paradoxalmente, cria uma ordem de oportunidades inédita. Para aproveitá-la, é necessária coordena o entre a política industrial, a agenda climática, o financiamento de longo prazo e a diplomacia econ mica. O momento de agir é agora.
Luciana Antonini Ribeiro, fundadora e CEO da Flying Rivers Capital, gestora de investimentos dedicada descarboniza o e solu es climáticas, integra o conselho consultivo do Global Climate Finance Centre, de Abu Dhabi, e o Mission Possible Partnership.










