A banda Titãs abriu uma turnê comemorativa dos 40 anos do álbum “Cabeça Dinossauro” no Espaço Unimed em São Paulo, e o show deixou claro que a obra continua relevante e impactante. O disco, lançado em 1986, marcou uma virada na carreira da banda, que mergulhou em um rock acelerado e com letras contundentes em um período politicamente conturbado no Brasil.
“Cabeça Dinossauro” representou uma mudança radical para os Titãs, que anteriormente exploravam uma mistura de estilos como rock, pop, reggae e até elementos da Jovem Guarda e música brega. O álbum se destacou por suas letras que criticavam instituições como a família, a igreja e a polícia, em um momento em que muitos ainda duvidavam do fim da ditadura militar.
O show seguiu a ordem original das faixas do álbum, proporcionando uma experiência nostálgica e intensa para os fãs. A performance ressaltou que “Cabeça Dinossauro” é mais do que apenas rock rápido e gritado; é um retrato da realidade e dos anseios da juventude em 1986, abordando temas como a chatice do almoço familiar e a violência policial.
A banda era conhecida por ter cinco vocalistas, que frequentemente cantavam em uníssono, uma característica marcante do álbum. Atualmente, Sergio Britto e Branco Mello são os únicos membros originais que permanecem na formação. Britto assumiu uma grande parte dos vocais no show, enquanto Mello, que passou por duas cirurgias nas cordas vocais, entregou uma performance emocionante, apesar da voz rouca.
Tony Bellotto, que na época do lançamento do álbum era mais conhecido como guitarrista, teve um papel mais proeminente no palco. Ele demonstrou ser um guitarrista experiente e à vontade, assumindo a função de “guitar hero”. Além disso, Bellotto assumiu os vocais em algumas canções, como “Família” e “Igreja”, mostrando versatilidade e segurança.
Durante o show, Bellotto aproveitou para agradecer aos médicos que estavam na plateia, incluindo o cirurgião que o operou recentemente para tratar um câncer. “Se não fosse ele, eu não estaria aqui”, disse o guitarrista, demonstrando gratidão e celebrando a vida.
A primeira parte do show, dedicada integralmente a “Cabeça Dinossauro”, criou uma conexão incrível entre a banda e o público, que era composto por pessoas de diferentes gerações. A celebração dos 40 anos do disco não foi apenas um momento de nostalgia, mas também uma oportunidade de apresentar a obra para um público mais jovem.
Após a execução completa do álbum, os Titãs optaram por uma estratégia ousada ao escolher canções de outros álbuns que dialogassem com a energia e a temática de “Cabeça Dinossauro”. A banda evitou tocar os hits mais conhecidos, priorizando músicas com letras agressivas e batidas fortes.
Algumas canções do repertório adicional, como “Será que É Disso que Eu Necessito”, do álbum “Titanomaquia”, de 1993, foram bem recebidas pelo público, enquanto outras, como “Eu Não Sei Fazer Música”, do álbum “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, de 1991, não tiveram a mesma repercussão.
Algumas músicas soaram como inéditas para parte da plateia, como “Canção da Vingança”, que faz parte de “Doze Flores Amarelas”, a ópera-rock lançada em 2018. Britto brincou com a estranheza do público diante de algumas canções, perguntando quantos conheciam a música.
A formação atual da banda conta com Mario Fabre na bateria, Beto Lee e Alexandre de Orio nas guitarras, além de Britto nos teclados, Branco no baixo e Bellotto na guitarra. Cada membro original se dedicou a um instrumento específico, contribuindo para a sonoridade característica dos Titãs.
A escolha do repertório adicional reduziu um pouco o entusiasmo do público após a performance de “Cabeça Dinossauro”, mas a qualidade das músicas do álbum que completa 40 anos é inegável. Canções como “Tô Cansado” e “Dívidas” se mostraram mais poderosas do que muitas outras obras do rock nacional lançado nas últimas décadas.
Quando a banda tocou as músicas mais complexas como “AA UU”, “Porrada”, “Bichos Escrotos” ou “O Que”, a comparação com outras bandas se tornou ainda mais evidente.
Para o final do show, os Titãs escolheram alguns de seus maiores sucessos, como “Diversão”, “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, “Lugar Nenhum” e “Eu Não Aguento”, esta última com um refrão marcante que remete a “Polícia”.
No bis, a banda presenteou o público com dois clássicos: “Desordem” e “Flores”. Esta última, embora não se encaixe no repertório de “Cabeça Dinossauro”, demonstrou a força criativa e a versatilidade dos Titãs.
A turnê de comemoração dos 40 anos de “Cabeça Dinossauro” é uma oportunidade para os fãs reviverem um dos álbuns mais importantes do rock nacional e para as novas gerações descobrirem a relevância e a atemporalidade da obra dos Titãs. O show em São Paulo foi um sucesso, mostrando que o rock nacional continua vivo e pulsante.

