Após tr s anos marcados por derrotas no Legislativo e dificuldades para coordenar sua base parlamentar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entra em 2026 sob a press o de um Congresso mais independente e assertivo. A tend ncia é de que o cenário de tens o entre os poderes irá continuar ao longo do último ano do mandato de Lula.
Em resposta, o presidente tem apostado na estratégia de mobiliza o social dirigida ao eleitorado mais fiel. No entanto, analistas e parlamentares ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que a op o por endurecer o discurso esquerda, confrontar o Congresso e recorrer com frequ ncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) contribuiu para piorar o ambiente político, sem sinais de revers o.
Propostas consideradas prioritárias foram derrotadas ou empurradas para a frente, num quadro que aliados atribuem reiterada fragilidade da articula o do Executivo. O próprio Lula reconheceu o problema, afirmando que a equipe governista no Legislativo "n o teve capacidade de convencer" parte dos congressistas.
A crise ganhou contornos públicos em novembro, quando os presidentes da C mara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (Uni o-AP), n o compareceram san o do projeto de isen o do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O gesto foi lido como sinal inequívoco de distanciamento do Congresso.
O afastamento institucional seguiu em 2026, já que os presidentes das duas Casas também n o participaram da cerim nia do governo em alus o aos tr s anos do 8 de janeiro, na qual Lula vetou integralmente o PL da Dosimetria. Motta cobrou respeito institucional e "acordos efetivos", firmados com "transpar ncia e seriedade".
Na oposi o, a avalia o é de que o governo errou ao insistir na polariza o e ao afastar o Congresso das decis es centrais. É a partir dessas falhas que a direita tem conseguido vitórias em vota es, mesmo sendo minoria.
Diante do desgaste, o Planalto intensificou, desde o fim de 2025, negocia es com partidos do Centr o, sobretudo o Uni o Brasil, incluindo uma for a-tarefa para acelerar a libera o de emendas parlamentares. Apesar disso, o ambiente segue marcado por um Congresso disposto a impor limites ao Executivo, prolongando a crise.
A entrada de Gleisi Hoffmann no comando da articula o política n o melhorou a rela o com o Congresso. Líderes do Centr o relatam, ao contrário, que o clima de confronto se agravou após a saída de Alexandre Padilha, deslocado para o Ministério da Saúde.
No fim de 2025, a rela o entre Planalto e Congresso acumulou novos atritos, com vetos derrubados, atrasos na libera o de emendas e disputas sobre pautas sensíveis, como licenciamento ambiental, seguran a pública e anistia. A atua o de Gleisi é descrita por parlamentares como "ideológica e pouco pragmática", além de introduzir na negocia o o tom de embate característico do PT.
Integrantes de Uni o Brasil, Republicanos e PSD afirmam que o governo n o cumpre acordos, falha na execu o or amentária e n o oferece rumo claro s vota es. A esperan a de mudan a com a saída de Padilha se dissipou rapidamente. Aconselhado por Gleisi, Lula manteve postura de enfrentamento, preferindo afagar a base ideológica e a polariza o com a direita sobretudo com Jair Bolsonaro (PL) a fazer concess es.
Para Adriano Cerqueira, professor de Ci ncia Política do Ibmec-BH, Lula assumiu de forma explícita uma agenda de esquerda mais dura, refor ada por alian as como a aproxima o com o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), que se tornou ministro da Secretaria-Geral da Presid ncia. " medida que o Centr o se afasta, essa imagem se consolida. Gleisi simboliza essa postura e n o se destaca como articuladora", diz.
Elton Gomes, professor da UFPI, avalia que a nova articula o fracassou, mas lembra que a deteriora o da rela o entre Executivo e Legislativo vem desde a crise do governo Dilma Rousseff (PT). O avan o do Congresso sobre o Or amento, observa, esvaziou a Presid ncia. No terceiro mandato de Lula, o processo ganhou o componente da judicializa o sistemática da política.
"O governo substituiu a negocia o com o Parlamento pela busca de decis es no STF", afirma Gomes. Para ele, a lógica do presidencialismo de coaliz o foi trocada pela prioridade em manter maioria no tribunal. Nessa conjuntura, o governo só vence em vota es no Congresso quando há converg ncia de interesses com os parlamentares.
O agravamento da crise ocorre em ano eleitoral, quando a din mica legislativa se torna ainda mais fragmentada e orientada por interesses regionais e pessoais. Sem reorganiza o efetiva da articula o, analistas veem risco elevado de novas derrotas relevantes ao longo de 2026.
Em paralelo, Lula prepara uma ampla reformula o da Esplanada dos Ministérios, com a possibilidade de ao menos 19 dos 38 ministros deixarem os cargos. A saída de Gleisi, prevista para abril, para concorrer C mara dos Deputados pelo Paraná, deve se somar do ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), que planeja disputar o Senado pela Bahia.
Apesar de ter sido tratado por Lula como "primeiro-ministro", Costa n o conseguiu conter as crises com o Congresso e tampouco entregou os resultados esperados do Plano de Acelera o do Crescimento (PAC), principal vitrine de obras federais.
No Congresso, a reorganiza o atinge lideran as partidárias. Na C mara, Lindbergh Farias (PT-RJ) deve deixar a lideran a do partido, com Pedro Uczai (PT-SC) cotado para assumir. No Senado, há expectativa de mudan as após embates internos envolvendo o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA).
Para Marcus Deois, diretor da consultoria Ética, a saída de ministros-chave, come ando por Ricardo Lewandowski (Justi a) em janeiro e Fernando Haddad (Fazenda), prevista para fevereiro, altera o equilíbrio interno do governo e reabre disputas por poder e dire o estratégica. "A tend ncia é de uma Esplanada mais fragmentada", afirma. "A pergunta central é se o governo está se reorganizando para vencer a elei o ou só para sobreviver politicamente até ela."
Na reta final do mandato, Lula tem recorrido press o da opini o pública para tentar destravar sua agenda. Um exemplo foi a cerim nia esvaziada no Palácio do Planalto do 8 de janeiro, quando vetou o projeto da dosimetria e usou o evento para refor ar o discurso contra a anistia aos envolvidos nos atos de 2023 na Pra a dos Tr s Poderes. O relator da proposta, Paulinho da For a (Solidariedade-SP), afirmou que o veto "rasgou a bandeira branca da paz".
Campanhas do PT passaram a tratar o Congresso como "inimigo do povo" para angariar apoio popular a pautas do governo, estratégia intensificada após derrotas como a derrubada do aumento do IOF. Para parlamentares, longe de ajudar, o movimento apenas aprofunda o isolamento do Planalto.










