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Japão rompe com pacifismo e libera exportação de armas

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, promoveu uma mudança histórica na política de ...

Japão rompe com pacifismo e libera exportação de armas

A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, promoveu uma mudança significativa na política de defesa do Japão ao flexibilizar as restrições à exportação de armas. A medida representa uma ruptura com as décadas de pacifismo do país, que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Agora, o Japão poderá vender armamento letal em cinco categorias – resgate, transporte, alerta, vigilância e retirada de minas – para países com quem a nação asiática mantém acordos de defesa.

Takaichi justifica a mudança com a deterioração da segurança regional, em um contexto de tensões crescentes com a China, Rússia e Coreia do Norte. A decisão, no entanto, gerou forte reação da China, que protestou veementemente, acusando o Japão de abandonar o pacifismo e avançar rumo a uma "militarização imprudente".

Desde que assumiu o cargo em outubro de 2025, Takaichi tem adotado uma postura mais firme em relação a Pequim. Ela manifestou apoio público à possibilidade de resposta militar do Japão em caso de um ataque chinês a Taiwan e intensificou a cooperação militar com os Estados Unidos e aliados regionais. Essas ações elevaram a tensão com a China a níveis não vistos há anos, aprofundando as mudanças iniciadas durante o governo do primeiro-ministro conservador Shinzo Abe (2012-2020). Abe, assassinado em 2022, iniciou um processo de reinterpretação da Constituição pacifista japonesa para ampliar o papel militar do país no exterior, sendo um mentor e referência política para Takaichi.

A atual primeira-ministra japonesa se destaca não apenas por sua postura confrontacional com a China, mas também por ser a primeira mulher a ocupar o cargo na história do país. Sua trajetória é incomum: ex-baterista de heavy metal, fã declarada de bandas como Iron Maiden e Deep Purple, e admiradora da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013). Aos 65 anos, Takaichi tem se afastado dos padrões tradicionais da liderança japonesa.

Takaichi ascendeu ao poder após vencer a disputa pela liderança do Partido Liberal Democrata (PLD), o partido governista. No sistema político japonês, a Dieta Nacional (o Parlamento) elege o chefe de governo, mas o líder do partido majoritário geralmente ocupa o cargo. Em fevereiro de 2026, Takaichi consolidou sua posição ao vencer as eleições antecipadas, sendo novamente confirmada como primeira-ministra pelos legisladores. A revista britânica The Economist a descreveu como "a mulher mais poderosa do mundo" após essa vitória.

Alinhada à ala mais conservadora do PLD, Takaichi é conhecida por suas posições firmes em temas como imigração, segurança nacional, valores tradicionais e políticas de gênero. Ela assumiu o cargo em um momento desafiador para o Japão, com uma economia estagnada, uma taxa de natalidade em declínio e um ambiente geopolítico cada vez mais tenso no Extremo Oriente. Além disso, o PLD enfrentava um período de desgaste político, com escândalos e a ascensão de novas forças políticas conservadoras.

Nascida em 1961 em Yamatokoriyama, uma pequena cidade na província de Nara, Takaichi cresceu em uma família de classe média sem histórico político. Seu pai era funcionário público e sua mãe, policial. Sua paixão pelo heavy metal a acompanhou desde a juventude, tocando bateria em uma banda e mantendo o hábito de quebrar baquetas durante os shows. Ela ainda possui uma bateria elétrica em casa e continua admirando bandas clássicas do gênero.

Antes de entrar na política, Takaichi trabalhou brevemente como apresentadora de TV. Seu interesse pela política despertou na década de 1980, durante um período de tensões comerciais entre o Japão e os Estados Unidos. Para entender melhor a percepção americana sobre o Japão, ela trabalhou no escritório da congressista americana Patricia Schroeder, observando como as culturas japonesa, chinesa e coreana eram frequentemente confundidas nos Estados Unidos. "Se o Japão não conseguir se defender, seu destino ficará sempre à mercê da superficial opinião americana", concluiu na época.

Takaichi iniciou sua carreira política como candidata independente em 1992, sem sucesso. No ano seguinte, conseguiu eleger-se deputada e, em 1996, filiou-se ao Partido Liberal Democrata. Desde então, foi eleita deputada dez vezes, com apenas uma derrota, consolidando-se como uma das vozes mais conservadoras do partido.

Ao longo de sua carreira, Takaichi ocupou diversos cargos ministeriais, incluindo ministra da Segurança Econômica, vice-ministra de Comércio e Indústria e ministra de Assuntos Internos e Comunicações. Em 2021, disputou pela primeira vez a liderança do PLD, mas perdeu para Fumio Kishida. Em 2024, tentou novamente, mas foi derrotada por Shigeru Ishiba. Foi apenas em 2025 que alcançou o cargo de primeira-ministra, tornando-se a primeira mulher a liderar o governo japonês.

Durante a campanha, Takaichi declarou seu objetivo de se tornar "a Dama de Ferro", em referência a Margaret Thatcher. Sua eleição foi considerada um momento histórico, mas também gerou debates no país. Seu primeiro gabinete incluiu apenas duas mulheres entre os 22 ministros, o que gerou críticas de grupos que esperavam avanços mais significativos em termos de igualdade de gênero.

Takaichi também defende posições conservadoras em questões sociais, opondo-se a leis que permitam às mulheres casadas manter o sobrenome de solteira e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, durante a campanha eleitoral, ela tentou apresentar uma agenda mais ampla de políticas sociais, prometendo tornar os gastos com cuidados infantis parcialmente dedutíveis de impostos e oferecer incentivos fiscais às empresas que forneçam esse serviço.

A primeira-ministra é considerada uma protegida política do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe e prometeu dar continuidade ao seu enfoque econômico, conhecido como Abenomics, baseado em fortes gastos públicos, políticas monetárias expansivas e estímulos à economia.

Em seus primeiros meses de governo, Takaichi anunciou um pacote de estímulo financeiro de cerca de 21,3 trilhões de ienes (aproximadamente US$ 134 bilhões) para ajudar famílias e empresas a enfrentar o aumento do custo de vida. O plano inclui investimentos em semicondutores, inteligência artificial e tecnologia estratégica, setores considerados essenciais para manter a competitividade do Japão frente à China e aos Estados Unidos.

Após sua vitória nas eleições antecipadas de fevereiro de 2026, Takaichi formou um segundo gabinete, reforçando ministérios vinculados à segurança econômica, tecnologia e defesa. A vitória eleitoral fortaleceu sua liderança dentro do partido e reduziu a pressão política.

Um dos objetivos de Takaichi é revitalizar o PLD, que domina a política japonesa desde 1955, recuperando o apoio da ala mais conservadora do eleitorado, que tem se voltado para o partido Sanseito, de extrema direita.

Takaichi também tem dado especial importância à política externa, reunindo-se com o presidente americano Donald Trump em outubro de 2025 para ampliar a cooperação bilateral em setores estratégicos, como minerais críticos, energia e tecnologia avançada. Em março de 2026, os dois líderes se encontraram novamente em Washington, em meio à crise energética no Oriente Médio, discutindo fórmulas para garantir a segurança das rotas de transporte de energia.

A primeira-ministra também se aproximou de outros aliados ocidentais, recebendo o presidente francês Emmanuel Macron em abril de 2026 para discutir cooperação em segurança energética, tecnologia e fornecimento de minerais estratégicos.

Assim como Shinzo Abe, Takaichi é considerada linha-dura em política externa, visitando o controverso santuário de Yasukuni, que homenageia os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra condenados, um gesto que provoca críticas da China e da Coreia do Sul.

Seu governo propôs aumentar os gastos em defesa para cerca de 2% do PIB e reforçar a cooperação militar com os Estados Unidos e outros parceiros da região do Indo-Pacífico, refletindo a crescente preocupação de Tóquio com a ascensão militar da China e as tensões em torno de Taiwan. A decisão de relaxar as normas de exportação de armamentos marca uma reviravolta na política de segurança japonesa, permitindo o fornecimento de armas letais para 17 países com quem Tóquio mantém acordos de defesa, incluindo os EUA e o Reino Unido, embora a proibição de exportar armas para países em guerra permaneça em vigor, com algumas exceções.

A reação da China foi imediata, com Pequim expressando "séria preocupação" e acusando Tóquio de avançar rumo a uma militarização imprudente. A Coreia do Sul pediu que eventuais mudanças respeitem o espírito da Constituição pacifista do Japão. A reviravolta japonesa reflete o reposicionamento do país em assuntos de defesa sob a liderança de Takaichi, em meio a um panorama regional cada vez mais complexo na Ásia.

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